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                                           PARA QUE SERVE A POLICIA? 

·                   Autor desconhecido

 

A policia serve para tudo. Pelo menos é assim que muitos pensam. O que dois policiais podiam fazer num hospital para atender uma solicitação dando conta que uma mulher chegara dizendo que ouvia vozes e que precisava de ajuda? Nada. Policiais não são psiquiatras. Mas foram chamados...

- Sargento, essa mulher chegou aqui dizendo que está ouvindo vozes de um tal de Muriel. Ela conversa com ele como se ele estivesse ao lado dela. Olha pra você ver - disse a atendente do hospital.

De fato, a mulher falava e gesticulava com exaltação, conversando com um ser imaginário a quem ela chamava de Muriel.

 

- Olha, Muriel, têm dois policias aqui. Não deixa eles me prenderem, não, Muriel.

- Senhora - disse o Sargento Mike -, nós não viemos aqui para te prender, não. Nós viemos aqui para lhe ajudar. Por que a senhora chegou ao hospital correndo?

- Foi o Muriel que mandou.

- Quem é o Muriel?

- Ele é o diretor da escola onde eu trabalho. Eu sou professora. A gente conversa por telepatia. Ele está me testando.

O Sargento Mike não entendia nada de telepatia, mas respeitava todo tipo de credo.

O Sargento virou-se para a atendente do hospital.

- A gente não pode fazer nada por ela, não.

- Mas ela chegou dizendo que estava sendo perseguida por algumas pessoas...

- Mas tudo isso é na cabeça dela.

- Sargento, eu chamei o médico. Espera só ele chegar.

- Eu acho que ela vai ter que tomar alguns remédios para ficar mais calma.

- O médico também acredita em coisas sobrenaturais. Ele disse que vai orar por ela.

O médico chegou com uma bíblia na mão. Cumprimentou os policiais e aproximou-se da mulher.

- Como a senhora chama? - ele a perguntou.

- Mary Sabich. Eu sou professora.

- Ah... Mary Sabich... Mary, vamos orar um pouquinho?

- Vamos, doutor. O Muriel tá dizendo que é para eu orar com o senhor.

O médico abriu a bíblia e leu o salmo 91 duas vezes para a mulher, mas ela o interrompia a todo momento.

Mike percebeu que o médico não estava tendo sucesso.

- Doutor, parece que será preciso medicá-la.

- Eu vou ler só mais um salmo para ela. O problema dela é espiritual. Ela precisa de oração.

Salmo 23. O senhor é meu pastor, nada me faltará... Ao ser interrompido novamente, o médico desistiu.

- É, sargento, ela precisa de oração, mas vamos aplicar uma injeçãozinha pra ela ficar mais calma. Você dois podem ajudar a gente? Talvez seja preciso segurá-la.

- Sim, doutor.

Mike e o Soldado Brucis eram policiais comunitários, por assim dizer. Não podiam negar o pedido do médico.

A mulher não queria tomar a injeção. Mike pensou num modo de convencê-la. Pegou o celular e apertou algumas teclas aleatoriamente. Depois, na presença dela, falou:

- Alô, é o Muriel? Oi, Muriel, é o Sargento Mike quem está falando. Tudo beleza? É o seguinte, a Mary Sabich precisa tomar uma injeção para ficar mais calma. Ela disse que só vai tomar a injeção se você deixar. Ela pode tomar? Pode, né. Então eu vou falar com ela que você disse para ela tomar injeção. Obrigado, Muriel.

O Soldado Brucis falou com o sargento:

- Bem que a psicóloga falou que o senhor é doido.

- Com direito a laudo psicológico de doidura e tudo.

Olhando para a mulher, Mike disse:

- É, Mary Sabich, Muriel falou que você tem que tomar a injeção.

- O Muriel falou? Então, tá bom. Eu vou tomar então.

Depois de alguns minutos tentando convencer a mulher a se deitar na cama para tomar a injeção, que seria aplicada na veia, ela disse:

- Eu só vou tomar se o Sargento Mike aplicar a injeção em mim.

E não é que o médico teve a audácia de perguntar:

- Sargento, você sabe aplicar injeção?

- Sei não. Doutor, vamos ter que segurá-la mesmo - esquivou-se Mike.

Quando a mulher percebeu a disposição no uso da força, apenas obedeceu ao médico.

Trinta segundos depois de ter sido aplicada a injeção, ela ficou sonolenta e não ouviu mais voz nenhuma. Ocorrência resolvida, o doido do Sargento Mike e o Soldado Brucis voltaram ao patrulhamento normal.

 

Nota: Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, fatos e lugares são frutos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Qualquer semelhança com fatos reais ou qualquer pessoa, viva ou morta, é mera coincidência.

 

"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.

 Sono tranqüilo 

  • ·        José Ricardo

Eram 22 horas. A rapinha composta pelo Sargento Mike e pelo Soldado Brucis realizavam policiamento “reloginho” pela cidade de Samsung. Embora fosse dia de semana, a rede de rádio não calava um segundo. De repente, as tumultuadas comunicações, fruto da grande demanda operacional, foram interrompidas por uma voz ofegante:

- Central, é a viatura 77777, prioridade. Prioridade, central!

- Continue 77777.

 

- Peço apoio urgente, urgente, aqui na Rua San Sebastian, perto da boca-de-fumo do Miller. Vários indivíduos da quadrilha estão tentando resgatar um preso da guarnição aqui, central.

A rede tumultuou ainda mais. Todas as viaturas queriam deslocar em apoio. A rapinha do Sargento Mike abandonou o patrulhamento “reloginho” e saiu em disparada para apoiar a 77777. E saiu voando baixo, afinal, companheiros estavam em dificuldade. O que não podia era acontecer um acidente, principalmente com vítimas, nem a viatura quebrar no caminho; o sargento estava consciente disso. O resto... Sacrificou o equipamento? Sim, sacrificou, mas os policiais em dificuldade é que não podiam ser sacrificados. Dane-se o equipamento! Em primeiro lugar a vida dos policiais.

- 77777, se for preciso, mete fogo nesses vagabundos. Não apanha, não! - disse Mike na agitada rede de rádio, enquanto pilotava dirigia a viatura - Não apanha, não! Mete fogo nesses cara!

Com o giroflex e a sirene ligados, e com o Soldado Brucis com metade do corpo para fora da viatura, a rapinha comandada e dirigida pelo Sargento Mike foi uma das primeiras, ou a primeira, a chegar onde se encontrava a 77777. Os militares logo desembarcaram.

- Eles estão fugindo. Eles estão correndo. - disse Drexter, patrulheiro da 7777.

Brucis, Mike e o Soldado Gayan, da 7777, correram em perseguição aos indivíduos que haviam tentado resgatar o preso. Perseguição difícil, visto o sobrepeso dos equipamentos carregados pelos policiais. Por motivo desconhecido, durante a corrida atrás dos infratores, o jovem soldado Brucis caiu, lesionando ambos os braços, dando as primeiras gotas de sangue pela Military Police. Apesar do esforço dos policiais, os indivíduos conseguiram evadir. Nesse entretempo, outras viaturas chegaram em apoio. A união da tropa é visível nesses momentos; união que não pode acabar. Se acabar, acabou a Military Police.

A situação foi dominada, e o comandante da 7777 explicou para os demais policiais o que havia acontecido. Ele e o patrulheiro Drexter realizavam operação na Rua San Sebastian, visando combater o notório e deletério tráfico de drogas que, em decorrência da impunidade (quem poupa o lobo sacrifica a ovelha), estava cada dia mais forte e audacioso. Durante a operação, a dupla deparou com o preso (menor), irmão do chefe do tráfico, em atitude suspeita, razão pela qual determinaram que ele parasse a motocicleta que conduzia. Ele desobedeceu e fugiu. Mas a fuga durou pouco, porque o menor perdeu o controle da moto e caiu. Os policiais desembarcaram e o imobilizaram, mas membros da quadrilha logo chegaram, investiram contra os agentes da lei e o tentaram resgatar, gerando o pedido de prioridade na rede de rádio

Com a situação já sob controle, o preso, ou melhor, o apreendido, ou melhor ainda, o menor em conflito com a lei, foi encaminhado à delegacia de plantão, onde a ocorrência foi encerrada.

No final do turno, na sede do Departamento de Polícia, quando o Sargento Mike desarmava, um policial que entrava de serviço naquele horário, sem saber de nada que acontecera na noite, falou para alguns policiais que também assumiam serviço:

- Ontem à noite, eu estava andando na rua, de folga, e uma viatura passou a mil por mim. Não tava nem aí pra quebra-molas nem nada. Passou com o giroflex e a sirene ligados... Nó! Depois o policial reclama que não tem viatura, que as viaturas estão todas quebradas. Mas eles mesmos são cupins, não estão nem aí pra viatura.

Sargento Mike ouviu calado. Não disse nada. Se o policial citasse o prefixo da viatura, ele talvez se defendesse, mas, já que não citou... Nem se sabe se a viatura que o outro policial mencionou era a dele, porque outras também deslocaram em apoio. Sendo ou não, ninguém é obrigado a criar provas contra si mesmo. Mike estava ciente de que a viatura realmente fora sacrificada. Mas dane-se a viatura! O que não pode é o companheiro ficar em dificuldade por dó de estragar um “bem do Estado”. Mike estava com a consciência tranqüila. Ficaria com remorsos se acontecesse o pior com os companheiros porque ele deslocou em apoio com escrúpulos de danificar um veículo policial, fazendo corpo-mole.

E assim o turno de serviço foi encerrado. Mike foi embora para casa, deitou-se, pôs a cabeça no travesseiro e dormiu tranqüilo, certo de que tomara procedimento correto e, se fosse preciso, faria tudo de novo, mesmo que por isso fosse punido ou tivesse que pagar por possíveis danos em patrimônio do Estado. Mas deixar o companheiro em dificuldade, jamais!

 

Nota: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.


"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.

 Lembranças de Natal 

  • ·        José Ricardo 

Com um beijo, despedi-me da esposa.

- Vai com Deus - ela me disse.

- Fica com Deus. Qualquer coisa, me liga - respondi.

Era noite de véspera de natal, 24 para 25 de dezembro. Mais um turno de serviço me esperava. Não adiantava ficar lamuriando; estava escalado e ponto final. No caminho até o quartel, as lembranças tomaram conta de meus pensamentos. Lembrava, com alegria, das visitas que recebi no dia. O Soldado Brucis foi lá em casa. Levou-me um presente. Disse que aprendeu muito comigo e que estava triste porque talvez eu fosse para o CFO. Sargento, se você for reprovado no psicotécnico desta vez, você é doido mesmo, pode internar na clínica Luiz André, ele disse, brincando. O Soldado Barros também foi lá. Brincou comigo, dizendo que eu fui bobo em não aceitar o convite para ir trabalhar na administração. Você estaria de folga hoje e só voltaria no dia 05, ele me disse. Não liguei. Talvez eu fosse mesmo um bobo. Bobo e doido... 

Enquanto me deslocava para o serviço, observei as casas enfeitadas, as famílias reunidas. E eu, longe dos meus pais. Mas estava feliz, porque não iria passar o natal sozinho. Minha esposa não viajou para a casa dos pais dela; decidiu ficar comigo. Não é bom passar o natal longe da família. Digo isso porque já passei, em razão da profissão militar. Bate uma tristeza, um vazio, uma solidão; nada tem graça. Certa vez, quando eu trabalhava num destacamento de uma cidadezinha do interior, minha mãe e meu pai foram até lá, na casa onde eu morava sozinho, e me levaram um presente inesquecível: uma bíblia. Noite de natal é sempre agitada. Parentes reunidos e uso de bebida alcoólica formam uma mistura explosiva. Já sabia que iria passar a noite atendendo ocorrências de ameaças, agressões, lesões corporais, acidentes de trânsito, som alto e, porventura, algum homicídio. Quando cheguei ao quartel, deixei as lembranças de lado. Estava desanimado, confesso. Cumprimentei meu companheiro de serviço, o Soldado Horgan, e desejei-lhe um feliz natal meio que antecipado, porque, nessa profissão, não podemos prever sequer o minuto seguinte. Talvez eu não chegasse vivo até a meia-noite. estávamos, eu e Horgan, terminando de nos armar, quando ouvimos na rede de rádio um pedido de prioridade. Ainda faltavam uns vinte e cinco minutos para entrarmos efetivamente de serviço, uma vez que havíamos chegado com antecedência. Se fóssemos burocratas, meros cumpridores de horário, poderíamos nos omitir, fingir que não havíamos escutado a mensagem. De acordo com as tumultuadas comunicações, uma viatura da polícia rodoviária estava acompanhando um ônibus que estava sendo assaltado e deslocava sentido o Aeroporto Internacional Turow Neves. Não se sabia o número de criminosos nem o armamento que possuíam. Não hesitamos um milésimo de segundo. Pegamos rapidamente nossos equipamentos - tonfas, lanternas, pastas, pranchetas, etc, - corremos até nossa viatura e os arremessamos no banco de trás.

- Central, é a viatura 44444 comunicando. Estamos deslocando em apoio a viatura da polícia rodoviária - transmiti na rede de rádio.

- 4444, sua viatura não consta aqui na minha tela, não - respondeu o despachante. - Tem problema não, Central. É só para dar ciência.

Partimos em disparada e em alta velocidade para apoiar os companheiros. Mais uma vez, senti que era aquilo que gostava de fazer. Amava o risco e a adrenalina do serviço policial. 

Nota: Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, fatos e lugares são frutos da imaginação do autor e usados de modo fictício. Qualquer semelhança com fatos reais ou qualquer pessoa, viva ou morta, é mera coincidência.

 

"É livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” - Inciso IX do artigo 5º da Constituição Federal.

TRIBUTOS AOS HERÓIS ANÔNIMOS

 * Siderley Andrade

 

O que empurra um homem para uma profissão de tal risco? A opção de um emprego? A vocação? O orgulho? Talvez sim, mas o desejo maior desse homem é de servir à sociedade, de salvar vidas, de proteger o indefeso, ser herói anônimo. Profissão de guerreiros, onde não é admitido o medo, a covardia, a omissão. Mas quem não tem medo? Afinal esse homem é de “carne e osso”, sujeito as mesmas emoções, sentimentos e medos que qualquer pessoa tem. Os medos afloram à toda situação de risco, sendo controlado , deixando esses homens sempre espertos e atentos. O convívio com situações de emergências se intensifica a cada dia, obrigando o mascaramento, pois afinal “Herói” não tem medo de nada. Um chamado no rádio da viatura informa uma ocorrência, o deslocamento veloz na expectativa de evitar o crime. Situações muitas vezes tristes, dramáticas e mesmo traumatizante, quando nos defrontamos com o crime, a violência, o acidente, a ilegalidade a fatalidade. Estas situações e responsabilidades que são colocadas nas costas desses homens de farda. A população reclama porque acha que é muito fácil manter a ordem pública na cidade. Mal sabe que, enquanto o jantar está sendo servido na família, na frente da televisão, no conforto do lar, do outro lado, no submundo, muito sangue está correndo, o nosso e o dos marginais. O serviço policial é o elo que separa a sociedade e o submundo do crime. É engraçado, ninguém fala ao seu dentista sobre uma extração de um dente ou uma restauração, ou nem se arrisca a falar ao médico que ele está fazendo uma cirurgia errada, mas todos parecem que entendem sobre segurança pública. Em muitas ocorrências, o cidadão com expectativas esperando que esse homem fardado resolva todos os seus problemas, do outro lado esse homem esperando cooperação, compreensão, solidariedade... Difícil Hein! Onde resta quase sempre alguma mágoa ou decepção, misturada com uma sensação de dever cumprido. As dificuldades da profissão, principalmente sobre as injustiças, os acertos são pouco elogiados, mas seus erros são duramente criticados pela sociedade e pela mídia. São poucos que reconhecem o árdua trabalho, pois na maioria preferem criticá-los. São profissionais que trabalham sob pressão permanente, enfrentando os mais diferentes tipos de adversidades e injustiças.  A rotina do dia-a-dia segue, mais um serviço, mais um plantão, mais uma noite, preleção, recomendações, alguns ajustando o equipamento, outros vestindo o colete a prova de balas. Últimos preparos e estão mais uma vez nas ruas . Durante a noite o rádio grita “Companheiros Baleados…, Companheiros baleados”. As viaturas se deslocam em alta velocidade no apoio, todos com um só pensamento “companheiros estão em perigo. O silêncio do rádio aumenta a ansiedade. Precisamos chegar.!. O rádio volta a gritar ” Companheiros baleados gravemente…estão sendo socorridos. “O coração dispara, os olhos lacrimejam, quem será ?…….Novamente o silêncio do rádio é quebrado, e é informado algo ninguém quer ouvir ……..Infelizmente informamos a toda rede que nossos companheiros acabaram de falecerem no PS”. Os sentimentos se misturam, desolação…, sensação de impotência….revolta…tristeza…..choro. Em meio a tudo isso, um pensamento ecoa “Poderia ter acontecido comigo. Amanhã quem será ? Será que serei o próximo?

 O perigo é nosso companheiro permanente, a morte em serviço significa o mais alto preço pago para a preservação da ordem pública e o restabelecimento da tranquilidade de cada cidadão, esses homens não são parte do problema na segurança pública, e sim parte da solução. A índole e o desejo profissional são mais que fato, o desejo de se defrontar com o inimigo é quase uma paranóia. Esses homens de farda sonham com o dia do primeiro tiroteio. Não para que esse dia não chegue, mas para que chegue rápido. Todo cidadão sonha e reza para nunca encontrar um marginal pela frente. Esses heróis torcem para que isso aconteça o tempo todo e ” quanto mais armado e apetitoso, melhor ainda ” Heroísmo, loucura, sabe-se lá ! O fato é que algo muito forte nos empurra para o perigo, e a cada dia a missão será cumprida..! Companheiros tombaram, mas para aqueles que continuam na batalha, e que em suas veias correm a vontade de ajudar os outros, servir a sociedade, vestir a farda com orgulho do que faz , que escolheu a missão de defender o cidadão de bem, confrontar o crime e que nisto arriscar a própria vida, a guerra não acabou. ” A missão continua “.

 

* Siderley Andrade de Lima, consultor de segurança patrimonial, Supervisor operacional da GCM de Jandira.

 

 

Dez Minutos Para Viver

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Temporal anunciado no serviço de meteorologia. Mais uma noite chuvosa e sonolenta de serviço. Talvez um acidente para atender e mais nada. Era sempre assim. Estávamos um pouco desanimados. Gostávamos de noites agitadas, de correria, de perseguição à vagabundos, de prisões. Gostávamos de ser polícia, eu e meu parceiro. Dois veteranos, quase vinte anos de serviço. Corações já endurecidos ao longo dos anos. Não sentíamos pena de vagabundo, muito pelo contrário, sentíamos sim, uma vontade de mandá-los para o outro lado, de limpar a cidade.

  Não importava quanto sangue o vagabundo derramava. Como disse, nossos corações estavam muito bem guarnecidos por uma crosta intransponível de quase vinte anos de crimes, de sangue, de choros, gritos, tiros. Paramos a viatura embaixo de um galpão da RFFSA para tomarmos um gole de café que eu sempre tinha comigo na viatura. Aproveitamos para desembaçar os vidros e esticar as pernas. Pelo rádio ouvimos a central despachar outra viatura para atender a um acidente na rodovia, grave, segundo o rádio-operador.

Não foi preciso palavras, apenas nos olhamos. Estávamos há mais de seis meses trabalhando juntos. Sabíamos, apenas pela troca de olhares, o que precisava ser feito. Jogamos os copos de café fora e saímos em direção ao acidente. A chuva aumentou. Vinha acompanhada de um vento muito forte que fazia a viatura balançar. Chegamos ao local do acidente antes da outra viatura, onde estavam dois colegas recém formados, inexperientes ainda. Também fui novato, ninguém nasce sabendo. Também colei as placas em momentos de tensão. Os anos encarregaram-se de me dar a experiência que hoje tenho. O veículo havia saído da pista. Chocou-se contra um pinheiro no acostamento. O motorista estava preso nas ferragens, ainda vivo. Enquanto meu parceiro verificava as condições dos ocupantes do veículo, instantaneamente eu sinalizava a rodovia a fim de evitar outro acidente. Era sempre assim que fazíamos. Éramos mais que uma dupla, éramos uma equipe, nos desdobrávamos nas funções, automaticamente. Quando a outra viatura chegou, orientei os colegas para sinalizarem melhor a rodovia. Nesse instante, meu parceiro que havia descido o barranco, gritou para um dos novatos.

- Desce aqui e me dá essa capa de chuva.
- Mas eu vou me molhar.
- Anda logo caralho. Tem um bebê aqui, porra. Desce.

Quando vi o novato chegando perto da viatura com o bebê no colo corri, abri a porta de trás para que ele colocasse o inocente no banco, onde verifiquei seus sinais vitais. Estava congelado, muito pálido. Apresentava sinais de hipotermia. Não pensamos duas vezes. Meu parceiro voltou para o veículo batido enquanto eu corria para o hospital com o bebê. Não havia tempo para esperar a chegada das ambulâncias. Acelerei aquela lata velha e saí cortando o temporal. A pista estava encharcada, mal conseguia manter a viatura estável. Precisava correr e não podia. Olhava pelo retrovisor o bebê no banco de trás, imóvel. A chuva e o vento faziam a viatura balançar. O limpador do pára brisa estava ligado no máximo, mesmo assim não dava conta de mantê-lo livre da chuva. Uma agonia foi tomando conta de mim. Um aperto no peito. Uma vida estava em minhas mãos, a vida de um inocente. A imagem de minha filha apareceu como uma projeção na noite. Eu precisava correr.

Foram os oito quilômetros mais longos de minha vida. Do local do acidente, até o hospital. Pelo rádio da viatura pedi para que deixassem o hospital em alerta para quando eu chegasse. No meio do caminho cruzei com as ambulâncias do resgate. Pensei em interceptá-las, mas não dava tempo. Melhor continuar. Tentava em vão acelerar mais a viatura. A chuva e o vento aumentavam. Eu não podia por em risco aquela criatura. Minha agonia foi aumentando. O risco de uma aquaplanagem era enorme. Andava no limite. Um olho na pista, outro no bebê, imóvel no banco de trás.

Cheguei ao hospital e, para minha surpresa, não havia nenhuma equipe à minha espera. Caralho. Peguei o bebê em meus braços e abri a chutes a porta da emergência. Como sabia onde ficava a sala do atendimento, fui direto para lá. No caminho já ordenei que trouxessem cobertores. Sim, ordenei, não tinha tempo para pedir favor. Prontamente as enfermeiras atenderam. Coloquei o bebê sobre a maca e dei espaço para as enfermeiras e o médico trabalharem. Ele abriu os olhos, chorou. Procurou naquele ambiente um rosto familiar. Foi quando aquele pequeno olhar encontrou o meu. Ele estava vivo, sim, vivo. Segurei sua pequena mão por um instante. Senti aqueles dedos frágeis e gelados apertarem minha mão. Ele parou de chorar e me olhava, no fundo dos olhos. Tinha apenas seis meses de vida.

Precisava voltar ao local do acidente para ajudar os colegas. Avisei as enfermeiras que voltaria depois e que havia mais vítimas. Embarquei na viatura e saí rasgando a noite. Apesar do temporal no lado de fora. Baixei o vidro da viatura e deixei a chuva que batia em meu rosto, lavar os pedaços daquela parede intransponível que, até então, envolvia meu coração e que saía em forma de lágrimas pelos meus olhos. Mais tarde, depois de todos os procedimentos, voltamos ao hospital. Dudu, o bebê, dormia, aquecido, como um anjo. O médico nos informou que ele não havia sofrido qualquer tipo de lesão. Mas, se não tivéssemos levado ele ao hospital naquele momento, teria morrido em menos de dez minutos por hipotermia.

---- Fim ----

Autor: Roberto Kusiak, soldado da Polícia Militar do Estado do Rio Grande do Sul, trabalhando atualmente no 5º BPM, na cidade de Montenegro, próximo à capital. Nascido em 1970. Desde 1990 convive com os horrores do mundo cão, com o lado sujo que não sai na imprensa. O papel e a caneta tornaram-se, para ele, um meio de estravazar o estresse, imperceptível aos meros espectadores.

Última atualização em Qua, 01 de Junho de 2011 22:27